Sobre No Silêncio das Trevas (3 de 5)

(por Isadora Sinay)

 

Sobre No Silêncio das Trevas eu começo dizendo que adoro filmes/livros de gênero. Um dos meus filmes preferidos na vida é Dawn of the Dead (que nunca lembro se ficou Madrugada dos mortos ou madrugada dos mortos vivos, mas enfim, o de 76) e leio Agatha Christie em uma tarde e confesso que gosto até de Stephen King. Eu adoro a ideia de uma “forma” e a possibilidade de ainda assim rechea-la criativamente, é quase como fazer um bolo de verdade, você tem a receita, mas se eu e alguma outra pessoa seguimos essa mesma receita a risca o bolo nunca vai ter o mesmo gosto.
Eu gosto muito do Hitchcock e esse filme me lembrou filmes dele em diversos momentos, principalmente no histórico de trauma da protagonista que me parece uma versão menos sofisticada da Marnie, mas o que ele faz não é a mesma coisa: ele subverte a fórmula do gênero, cria o inesperado ao seguir as regras do jogo até um certo ponto e depois dispensar. O que eu gosto em No Silêncio das Trevas é um pouco isso, é um filme de gênero, é quase um romance da Agatha Christie que se a gente parar pra pensar também se sai com resoluções um pouco óbvias e quase mal ajambradas.
Nesse sentido, eu gosto do que a Maíra desgostou, a questão do filme ser muito “verbal”, dele optar por explicar coisas que poderiam ter sido mostradas. Eu concordo que ele perde em sofisticação e “grandeza” ao optar por isso, mas pra mim tem um gosto de clichê esperado e divertido por isso mesmo, como quando o vilão de super-herói decide explicar o plano nos minutos finais, sabem?
Eu imagino que não tenha sido a intenção, mas pra mim ficou como um filme quase ktisch, desse excesso de verbalidade a canastrice do ator e eu não sei… mas pra mim tudo isso tem um gosto ótimo de cinema como cultura pop (que é o que ele é mesmo no fim) e o filme me pegou.
Além disso tem os ótimos planos da escada, que dado o título original é quase um personagem, geométricos, quase abstratos em alguns momentos e acho magistral a cena em que estamos em subjetiva do assassino e a Blanche diz “ah, é só você”. Nós sabemos que é o assassino porque é o único personagem que foi colocado em subjetiva e descobrimos nesse momento que é um conhecido, alguém da casa, claro que era óbvia, mas achei ótima a maneira como essa certeza foi construída.
Eu realmente gostei do filme Diego, quero muito ouvir o que você tem a dizer.
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Sobre No Silêncio das Trevas (2 de 5)

A primeira coisa que tenho a dizer sobre No Silêncio das Trevas é que as primeiras sequências são de uma elegância ímpar. É tudo muito bem executado, desde a cenografia e o trabalho dos atores aos movimentos de câmera. Os primeiros minutos do filme (até que os personagens e a rotina da mansão estejam devidamente apresentados) são impecáveis. Siodmak conduz o suspense de uma forma inteligente, nos apresentando cada detalhe sem pressa, a fim de ir entregando aos poucos as personalidades dos personagens e as surpresas da trama. Essa maneira paciente de ir trazendo o suspense de forma gradativa, porém, para mim ficou parecendo que só funciona na primeira metade do filme, porque depois disso o que vinha sendo um desenrolar angustiante, que fazia muito bom uso dos elementos de uma narrativa clássica de suspense, vai se transformando num atropelamento de situações bastante clichês, como mencionou a Maíra, o que transparece uma pressa para finalizar a trama que não condiz com a sobriedade e paciência anteriores.

Gosto muito do trabalho da Dorothy McGuire. Acredito que a atuação dela ao longo do filme é o que manteve o meu interesse após as obviedades do que se pretendia um whodunit terem se revelado. Ela é contida nos momentos certos, equilibrando uma personalidade doce com um histórico traumático. O momento final da personagem me pareceu antológico, e deveria figurar nessas listas de grandes momentos de atores no cinema, e a já mencionada cena do cinema é de uma singeleza brilhante; deveria até ser mais longa. Já o George Brent tem uma maneira de atuar que é daqueles atores antigões, super canastra, com direito a levantadinha de sobrancelha e bigodinho nojento, haha. Odiei o trabalho dele, envelheceu muito, a ponto de em alguns momentos me causar um leve constrangimento. Já a Ethel Barrymore, que também tinha esse jeito teatral de interpretar, o faz com dignidade e parecia conhecer muito bem a linha que ultrapassa o drama da comédia; ela é exagerada, mas sabe a dose exata para não cair no ridículo. Quanto ao resto do elenco, regulares, alguns bem ruinzinhos, mas pela época a gente perdoa (só o Brent mesmo que achei imperdoável).
No Silêncio das Trevas é um bom filme. Um bom filme que poderia ser excelente: possui um prólogo nada menos que brilhante e uma protagonista maravilhosa, mas acho que desanda exatamente na sua essência, que é o suspense, inicialmente conduzido com destreza e progressivamente perdendo força.
Léo Tavares

No Silêncio das Trevas (1/5)

(por Maíra Bueno)

Em primeiro lugar, uma opinião pessoal (como se as outras não fossem…): adoro filmes antigos de época. Acho interessantíssimo pensar como pessoas de outro tempo enxergavam e remontavam um tempo ainda anterior a elas. Como Cantando na chuva, que é dos anos 1950 mas se passa nos anos 1920, ou Quanto mais quente melhor (épocas que coincidem também). Só um parênteses meio irrelevante.

 

No silêncio das trevas é construído através de metáforas engenhosas, embora às vezes óbvias (como quando o assassino vê Helen e sua boca aparece manchada, por ela ser muda e, obviamente, próxima vítima dele, já que ele é um serial killers de deficientes). Gosto de como a personagem principal, Helen, foi filmada pela primeira vez – imersa naquele universo mágico de Griffith. Não há como não lembrar de A Rosa Púrpura do Cairo – quantos planos da Mia Farrow são praticamente idênticos a esse? Rs.

 

Me desagradou um pouco o jeito um pouco brusco de jogar a suspeita dos crimes para determinado personagem – embora o espectador atento não demore a perceber whodunit. Acho que o modo que isso foi feito (“não confie em ninguém”, “você precisa sair da casa”, “você precisa ficar na casa”) não foi sutil e elegante à altura da direção de arte e do potencial que acho que esse filme poderia ter atingido.

 

Não me entendam mal. Gostei do filme, honestamente. Só acho que ele seguiu por caminhos que, particularmente, não me apetecem. Não gosto de filme muito explicado verbalmente (e isso não é ser “contra” diálogos: taí todo o meu respeito pelo Woody Allen pra provar isso!). Acho que o filme perde muito quando tem que explicar que “eu vejo até de olhos fechados”, ou “eu deixei a empregada roubar a garrafa pra que ela ficasse tonta” quando você poderia fazer isso com mais habilidade, no uso da imagem e do diálogo que deixasse transparecer isso, mas não simplesmente narrasse isso.

 

Fiquei me sentindo muito implicante (e talvez eu seja mesmo) porque eu sei que estamos diante de um belo filme. O negócio é que eu realmente acho que um filme perde quando escolhe a surpresa em detrimento do suspense. Escolha do roteirista, do diretor, do produtor. Mas não me “pega de jeito”. Vou deixar Hitchcock, entrevistado por Truffaut, falar por mim.

 

“Num whodunit não há suspense mas uma espécie de interrogação intelectual. O whodunit suscita uma curiosidade destituída de emoção; ora, as emoções são um ingrediente necessário ao suspense. (…) A diferença entre suspense e surpresa é muito simples, e costumo falar muito sobre isso. Mesmo assim, é frequente que haja nos filmes uma confusão entre essas duas noções. Estamos conversando, talvez exista uma bomba debaixo desta mesa e nossa conversa é muito banal, não acontece nada de especial, e de repente: bum, explosão. O público fica surpreso, mas antes que tenha se surpreendido, mostraram-lhe uma cena absolutamente banal, destituída de interesse. Agora, examinemos o suspense. A bomba está debaixo da mesa e a platéia sabe disso, provavelmente porque viu o anarquista colocá-la. A platéia sabe que a bomba explodirá à uma hora e sabe que faltam quinze para uma – há um relógio no cenário. De súbito, a mesma conversa banal fica interessantíssima porque o público participa da cena… No primeiro caso, oferecemos ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo caso, oferecemos quinze minutos de suspense. Donde se conclui que é necessário informar sempre que possível, a não ser quando a surpresa for um twist, ou seja, quando o inesperado da conclusão constituir o sal da anedota”. (in Hitchcock Truffaut, 2008, p. 76-77).

É isso.

 

E pra mim a imagem mais interessante do filme – e o filme tem ótimas imagens – vai ser sempre a hora que Helen finalmente fala. Se ela era testemunha silenciosa, agora tem voz. Se o cinema era mudo, também ele tem voz. E a voz do primeiro cinema falado (que tinha menos de 20 anos quando No silêncio das trevas foi lançado) é rouca, arranha os ouvidos. O que ele diz pode ser pungente, mas até seu estabelecimento como ferramenta (?) eficaz, ainda leva um tempo. E depois dá pra fazer coisas belíssimas com ele. Ou com a voz. Helen finalmente vai poder dizer “I do”.

Correndo em Mônaco, na chuva

(por Maíra Bueno)

A imagem mais eloquente de Ayrton Senna, a mais representativa, a mais bonita é (ou são) as de seus momentos de profunda concentração antes de uma corrida, lustrando, com esmero, o capacete tão conhecido de todos nós. O documentário Senna mostra Ayrton e seu capacete, nesta situação, apenas uma vez. Para mim, no entanto, sempre será a imagem que o define. O resto do filme preocupa-se em (re)construir, (re)forçar a imagem de bom-moço que o piloto sempre teve.

Construído exclusivamente com imagens de arquivo e algumas entrevistas mais recentes, Senna não traz novidades formais enquanto documentário, bem como “apenas” reconta a história que todos já conhecemos: o início de Ayrton no kart, a chegada à Fórmula 1, desempenhos incríveis em equipes pequenas, o brilhantismo na McLaren, a rixa com Alain Prost, o desajuste com o carro da Wlliams e, enfim, sua morte (o espectador é lembrado, ao final do filme, que após a morte de Senna e de Roland Ratzenberger, no mesmo fim de semana, o médico Sid Watkins tornou-se um dos responsáveis por novos padrões de segurança na F1, e que, depois de Ayrton, nunca mais nenhum piloto morreu na modalidade).

Ao longo do documentário, o espectador é levado – muitas vezes sem nenhuma sutileza – por suas emoções. A trilha sonora bombardeia imagens que por si só já diriam tudo – como tudo é dito quando vemos a concentração de Senna antes das provas. A impressão é de que houve uma tentativa de forçar emoções no que, a princípio, talvez não traga emoção nenhuma embutida (ao menos para o espectador médio): o automobilismo. À exceção da trilha e da incômoda montagem no momento em que Senna é velado – vemos o caixão e sua família, e Senna feliz com a família, o caixão e Xuxa, e em seguida Senna e Xuxa (o mesmo com Galisteu, claro, e até com Frank Williams) – e embora não seja um documentário excepcional, Senna vale o ingresso, e talvez mais do que isso.

Embora a preocupação óbvia fosse manter a imagem de Senna como herói nacional (e talvez um herói do esporte mundial) – o que inegavelmente ele foi mesmo, especialmente com a situação política, econômica e social do Brasil na década de 1980 e início de 90… Há uma preocupação, ainda, com o Senna humano. Não apenas o atleta e herói engajado (em causas sociais, e também buscando mostrar o que seria “justo” no meio da politicagem da F1, exigências quanto à segurança nas provas…). Vemos Senna como um homem humilde – adjetivo repetido por fãs e até pelo médico da F1, Watkins – porém ambicioso. Para Alain Prost, a fraqueza de Senna, quando ambos foram colegas de equipe na McLaren, é que ele não queria apenas vencer Prost, queria humilhá-lo.

Não há quem conteste essa opinião – embora a rixa dos dois não fosse algo tão simples e muito menos unilateral. Viviane Senna, irmã de Ayrton, lembra que 1986, ano em que ele entrou para a McLaren, foi um ano fundamental em sua vida: com um carro melhor, ele deveria, de fato, provar que era um grande piloto. Vencer era uma obsessão de Senna, o documentário deixa claro. O piloto só ficava tranquilo de fato quando as coisas iam bem nas pistas. Evidentemente, ninguém gosta de perder, ainda mais em uma corrida. Mas a obstinação de Senna mostra que vencer era algo mais sério, algo como uma responsabilidade.

No fim de semana de sua morte, em que houve outros dois acidentes, o Dr. Watkins, ao ver Senna preocupado com a corrida (e talvez não só) propôs a ele que ambos largassem a F1 e fossem pescar. Senna respondeu “I can’t quit”. Senna não podia largar as pistas como Drummond não podia não escrever (não recordo a frase, ou o verso, mas o poeta dizia que só se deve escrever quando é necessário.) Para Ayrton, era necessário correr.

Muito se diz de gênios da Fórmula 1 – o adjetivo é atribuído a Senna pelo menos duas vezes durante o documentário, e certamente poderíamos citar outros gênios do esporte, como Schumacher, para nos ater-mos ao mais evidente. Ayrton Senna não era só um gênio da Fórmula 1. Ayrton Senna era um artista. Como o poeta que cuida com esmero das palavras que usa, Senna cuidava de seu esporte. E por isso a imagem de Senna e seu capacete, absolutamente concentrado, para mim é o que sintetiza Ayrton como piloto, como pessoa, e como artista.

No Brasil, é comum falarmos de “futebol arte”. Tão comum quanto, é falarmos que “a Fórmula 1 perdeu a graça depois que Senna morreu”. Com este documentário, finalmente entendi por que muitos conterrâneos deixaram de assistir à F1 depois de 1994. Não é porque nunca mais tivemos um gênio vencedor como Senna. É porque nunca mais tivemos – e agora não me refiro apenas a nós, brasileiros – um artista como Senna. Talvez não só a música, mas também toda a Arte, venha do silêncio. Ver Senna em silêncio é talvez mais comum do que vê-lo falando. E retomo a imagem do piloto absolutamente concentrado em sua arte, fazendo-a nascer do silêncio. A fatalidade, todos sabemos, silenciou este artista, como tantos outros. O silêncio que ouvimos de Senna, em 1994, não é mais opção estética. É um legado – certamente forçado, mas absolutamente apropriado à sua condição de piloto-herói-ser humano engajado.

Méliès (parte 5 de 5)

(por Isadora Sinay)

 

Vou começar comentando coisas que vocês já falaram, já que sou a última

1- Viagem à Lua é um dos meus filmes preferidos, assim, de todos, junto do Bergman, do Godard, do que quer que seja. Eu acho que independente da falta de linguagem ele mexe com um fantástico que é universal… é quase um livro do Júlio Verne! Você lê hoje e aquilo que uma ficção científica “ao contrário” mais ou menos, aquelas coisas ou já existem ou nunca vão existir e a gente meio que já sabe, mas a ingenuidade de achar que no centro da terra existem tribos esquisitas te carrega.
2- a Maíra falou da questão da imagem ser a coisa. Até hoje nos países ortodoxos um ícone (sabe, aquelas imagens religiosas que eles tem?) não são representações eles SÃO o santo/cristo encarnado. E eu acho que tem meio a ver com o que o Bazin fala, a imagem de cinema não é realista porque é em si, mas porque denota uma realidade, aquilo esteve ali em algum momento.
3- No Barbazul a hora que aparecem os fantasmas com véus no rosto aquilo me lembrou demais o segundo ato de Gisele, o ballet, onde aparecem as Willies que são moças virgens que morreram de amor e sei que são figuras da mitologia germânica. Tanto a lenda quanto o ballet são anteriores ao Méliès (e ao cinema em si) e podem ter sido referência.
4- O cinema entendido como arte vem com as vanguardas do 20 sim, inclusive eles tentam se aproximar de movimentos das artes plásticas né? Expressionismo, Surrealismo, Dadaísmo… eu amo, amo, amo o Ballet Méchanique (aloca do ballet gente! esse lado vocês não conheciam) que inclusive tem participação do Férnand Léger. E todo o expressionismo é uma coisa incrível.
5- Sobre o que o Leo falou do sci-fi é engraçado para pra pensar que boa parte da ficção científica é romântica no sentido filosófico, tem medo da técnica. É fascinada pela técnica, mas ela quase sempre acaba em distopia e nesse sentido a comparação do Viagem à Lua com o colonialismo e expansionismo é perfeitamente válido, eu acho o sci-fi um dos gêneros que mais falou de coisas relevantes sem perder a veia do entretenimento, filmes como Blade Runner (que eu acho chatérrimo, mas é um entretenimento vai) ou até V de Vingança (que é menos ficção, mais só a distopia enfim e aliás, o quadrinho original é uma obra prima do mundo, juro!)
Não sei se sobra muito pra falar agora… vendo o Barbazul me vinha a cabeça o tempo todo que gênio foi quem olhou pra imagem em movimento e pensou “vou contar uma história” e todas as pessoas (o Porter, o Grifith) que foram entendendo o que fazer com aquilo, me parece aquelas coisas extremamente fugidias sabe? que poderiam nunca ter acontecido? Tenho isso com várias coisas, com pinturas do Van Gogh por exemplo, se ele fosse um pouco menos perturbado tudo seria diferente e a arte seria diferente.
Numerei os parágrafos porque sabia que eu não ia encadear. Sou vampirinha esses meus emails longos sempre vão chegar de madrugada, haha

Méliès: Parte 4 (de 5)

Queridos,

Acabei de ler as impressões de vocês sobre os filmes, logo após assisti-los. Acho que vocês disseram basicamente tudo o que eu pensei sobre eles, especialmente a respeito da figura do Méliès e o papel dele na história do cinema. Fiquei aqui pensando, enquanto via Viagem à Lua, em como seria assistir a esses filmes sem todo o repertório visual que temos hoje, e nessa parte, acho que os comentários do Diego sobre a Dorothy Maguire ilustram muito bem que sensações essas projeções deveriam provocar nas pessoas. Nesse ponto, me interessa muito refletir sobre a influência do cinema no imaginário coletivo desde os seus primórdios (esse é um dos pontos da minha pesquisa sobre representações de sexualidade e gênero ao longo da história do cinema) e em relação ao Méliès, pelo que temos lido, Viagem à Lua desempenhou um papel importante no imaginário popular do comecinho do século XX. Creio que se hoje -um século de imagens em movimento mais tarde- sendo o nosso repertório de referências imagéticas tão grande a ponto da cultura visual ter se transformado num campo teórico prolífico, ainda conseguimos nos relacionar com certas imagens de maneira tão forte a ponto delas se tornarem modelos representativos, imaginem em 1902, o que Viagem à Lua não deve ter sido, nesse sentido; como aquelas imagens devem ter alimentado a fantasia das pessoas. É claro que o cinema ainda tem esse poder, mas não consigo deixar de pensar no quanto deve ter sido maravilhoso, de uma forma assombrosa, se deparar com o nascimento de uma linguagem totalmente nova. Não consigo sequer imaginar essa possibilidade agora, não que ela não exista, mas é mais ou menos como imaginar o que seria cinema antes do cinema.
Também é interessante vermos o nascimento de um gênero: a ficção científica, claro, já apresentando várias de suas recorrências temáticas (Viagem à Lua é para o sci-fi o que O Grande Roubo de Trem foi é para o western). E também gosto de buscar leituras de discursos existentes ali: além de ser um belo entretenimento, Viagem à Lua também pode ser visto como uma crítica à sociedade francesa da Belle Époque, com sua expansão industrial e inovações tecnológicas (acho que é uma leitura a ser feita), assim como o encontro dos humanos com os selenitas (com seu figurino de exotismo tribal e seus gestos selvagens) pode representar o contato dos europeus com os povos considerados não civilizados (a França ainda possuía colônias na África, por exemplo). E esse ponto dá muito ponto pra manga, se acharem interessante desenvolver…
Mas bem, além disso posso reforçar que gostei muito dos comentários dos três (agora falta a Isa, né) e que acho que essas discussões contribuem demais para o que eu preciso pesquisar e estudar neste momento acadêmico. 🙂
Não vou falar especificamente dos outros filmes. O L’homme-orchestre nada mais é do que um número de ilusionismo e o Barbazul ainda era teatro demais, é claro, mas deve ter sido um espetáculo e tanto assistir a essas imagens.
Léo Tavares

Méliès – 3ª parte (de 5)

(por Maíra Bueno)
Fui lendo o email do Diego e uma montanha de pensamentos me veio à mente, então vou tentar organizar. E já vou admitindo que pretendo usar meu caderno da disciplina de gênese e primórdios do cinema, que foi realmente fascinante (e o professor, Heitor Capuzzo, além de um fanático, é um monstro do cinema, sério).
A essa altura do campeonato, todos já sabemos que Méliès era um mágico – e assim permaneceu até o final da vida. O cinema, na verdade, foi uma etapa da até coerente carreira dele. O que ele sempre quis era encantar as pessoas, e abrir uma lojinha de brinquedos e aparatos para truques, embora seja um fim triste, meio que encaixa.
Uma coisa que meu professor disse e que me impressionou muito é que no começo do cinema (e reza a lenda que o Méliès estava na histórica sessão dos Lumière) aquilo ERA a realidade de alguma forma. Como o trem que dizem ter assustado as pessoas. Mas um pouco mais que isso. O filme, a imagem de uma santa, por exemplo, ERA a própria santa. Como a personificação dela. Isso até as pessoas se habituarem com o ver o filme e tal – e, claro, as próximas gerações já nasceram com isso, e o espanto incial foi perdido. Não digo isso com saudosismo, inclusive porque esse espanto tem a capacidade de voltar às vezes: não com o fascínio da imagem em movimento, mas porque sempre vão existir aqueles filmes que nos assombram. A Trilogia Qatsi fez isso por mim, por exemplo. Ele inclusive parte da premissa – nada nova, claro – de que você nunca viu o mundo em que vive. E o cinema sempre vai poder fazer isso.
No documentário que revi ontem, Le Grand Méliès, citam o Griffith, que teria falado que “deve tudo” ao Méliès. E, como sabemos, o Griffith é a figura chave da experiência independente ao cinema “tecnológico”, à indústria. Achei interessante ele dar esse “crédito” ao Méliès e não a, sei lá, outros pioneiros como o Porter. Embora faça sentido, já que o Méliès, além de um Spielberg, também foi quem primeiro entendeu que o cinema é um espetáculo – o que Griffith desenvolveu como ninguém.
Méliès foi o primeiro, ou pelo menos assim é tido, a pensar e montar um estúdio, por exemplo. Afinal, os cineastas estavam sujeitos “ao tempo”. Tem uma maquete do estúdio dele na Cinemateca – era uma grande casa de vidro e os filmes eram feitos à luz natural. Pode parecer bobo, ou apenas mais uma curiosidade, mas se vocês pensarem bem, é esse tipo de coisa que possibilitou, ou pelo menos impulsionou, a ideia de usar cenários.
Outra coisa que foi falada no documentário, e acho que até mencionei nesses emails, é que na época faziam filmes imitando os outros. O que, de acordo com meu caderno, “não é plágio ainda, e provavelmente nem dividiriam o público”. Agora, uma coisa importante desse fato é que ele diferencia os artistas dos técnicos. Afinal, fazer um filme não é uma coisa tão difícil assim. Construir uma narrativa é mais complicado. Sempre falo pros meus colegas de cinema (fiz um curso técnico antes de entrar no mestrado) que a gente tem que aprender com os clássicos. podemos apreciar filmes de linguagem revolucionária e não sei o que (e eu sou a louca do Qatsi e louca do Eisenstein). MAS TEMOS QUE APRENDER COM GRIFFITH. e quem me ensinou isso foi o próprio Eisenstein que, sem o subsídio do que era a indústria cinematográfica da Rússia de antes de 1917, sem Griffith e sem Mickey, não teria feito o que fez. Ou, como bem compara meu pai: é como Picasso, que sabia fazer um quadro realista, ‘certinho’, perfeitamente. Só quem domina o que já é o certo, o convencional, é capaz de criar verdadeiras revoluções.
Méliès não era um cara de negócios, era um mágico. E a decadência dele coincide com a fase áurea dos irmãos Pathé (fui no cine Gaumont-Pathé em Paris, toda emocionada, até descobrir que era uma rede gigantesca, hehehehe) – que eram distribuidores pesados e bom produtores. E o Méliès acaba sendo fruto e vítima desse sistema que ele próprio ajudou a acelerar. (E se vocês pensarem… Méliès, já meio decadente, trabalhou no Pathé. E não nos esqueçamos do Buster Keaton, que também encontrou a decadência ao ir pra Metro).
Quando estava lendo o email do Diego, lembrei que um de meus professores nessa escola técnica conta que a mãe dele (uma mulher nascida nos, suponhamos, anos 50 ou 40) ficava impressionada quando ele e o irmão faziam essas trucagens de filmar o sofá, parar a fita, arrastá-lo e ele aparecer em outro lugar. Claro que tem a corujice de mãe, mas esse é o tipo de coisa que impressiona até hoje, guardadas proporções.
Olhando aqui no caderno. Achei uma comparação que só endossa mais o comentário do Diego sobre o Mélies ser um Spielberg. É que na matéria que fiz falou-se também de Segundo de Chomon, um espanhol que trabalhou no estúdio Pathé e que era “o” cara dos efeitos especiais – pensava-os e desenvolvia-os etc. O quadro de comparação é justamente esse: Chomon está para George Lucas assim como Méliès está para Spielberg – considerando Spielberg um diretor, mais autoral, com uma visão mais clara de cinema e de arte. Gente, e isso nem é menosprezar o Chomon, é só uma comparação mesmo. Até porque as pesquisas dele em efeitos, e estudo de cor (tenho um colega que está fazendo doutorado sobre a obra dele) foram fundamentais. Como George Lucas também tem seu lugar (embora eu tenha preguiça, rs). O Chomon foi um que copiou filme do Méliès, por encomenda de Pathé (ó Viagem à Lua aqui). As trucagens dele são mais sofisticadas, e chegou a trabalhar no belo Cabíria (1914, do Pastroni) e também com o Abel Gance. Um filme dele, com a observação de “incrível”, anotada no caderno.
Sobre os filmes a que assistimos, acho difícil falar. A narrativa é precária, os truques já foram aprimorados, e ainda assim existe um espanto. Um encanto mesmo. Fecho com a anotação da aula:
É possível ver a obra dele com saudosismo, mas é mais interessante vê-lo como um homem que construiu seu sonho, sua visão de mundo e de arte. Foi um cometa que passou, para ser visto e para ser lembrado – mas cometas não podem passar, assim, toda semana. E vão sempre lembrar dele, e enquanto ele estiver passando, ninguém olha para as outras estrelas. (O discurso do professor foi emocionante. Eu sempre saía da aula meio emocionada).
PS: O documentário a que assisti foi O mundo mágico de Méliès, e anotei “esclarecedor, mas loooongo”.

Pequenas impressões sobre Méliès

Dando sequência ao que discutimos na semana anterior sobre os curtas do Méliès.
Vi o “L’homme Orchestre” primeiro, justamente pela colocação do Diego. É extremamente curto! Mas olha, me divertiu bastante. Me senti meio idiota, porque numa parte eu me perguntei “como ele fazia isso”. Sim, um cara de 1900 me suscitou dúvidas. É na parte em que ele está se espalhando nas cadeiras. Foi feito de uma maneira tão bacana, que você não sente aquele lance da truncagem, que é a imagem dar um pulinho, o caso, o corte. Mais ou menos no meio dá pra perceber, e aí entrega o ouro… Mas acho bem bacana. Me lembrou de ver o Mister M no Fantástico, e ficar naquela curiosidade de saber como a ilusão é feita. Eu era criança, relevem. A questão é que achei bem legal, bem espetáculo mesmo. Ele sabia o que tava fazendo! Uma pena a vida dele não ter dado certo. Mas acontece, right?
Em seguida, assisti “Barbe Bleue”. Eu achei chato, confesso. Mas assim, eu não conhecia a fábula. Precisei da Wikipédia pra me situar, depois ver o filme. Agora, é como o Diego colocou… Não há muita linguagem, né? Parece um teatrinho filmado. Tanto que no final aparece o elenco. O cenário todo pintado, e você visivelmente percebe isso. Engraçado que usam isso até hoje. Mas gostei do figurino, qye é bem brega. Me pergunto se nessa época era comum aparecer filmes com gente morta. A cena das esposas no gancho consegue ser bem creepy. Me lembrou inúmeros filmes, onde penduram corpos. Como a cultura se repete, não? Alguém reparou na fusão de imagens? Eu achei que era coisa do Griffith!
“Voyage dans la Lune” é o mais gostosinho dos três. Bem ícone mesmo, já vi repetidas vezes na faculdade. A linguagem não teve tanta mudança, se você perceber. Mas não faz diferença, o filme dá essa questão eletrizante. O problema é que já fomos tão estimulados pelos filmes atuais, que ver esses antigos não causam a mesma reação. Vide o caso do trem chegando na estação. No início todo mundo ficava meio assustado com o 3D, enfiando a mão na cara (os encartes mostram isso). Hoje em dia você conta nos dedos as cenas que te fazem ter esse tipo de reação. Inclusive acho o 3D um recurso muito desperdiçado… É super legal quando bem feito, vide “Smurfs”. Quando escrevi sobre o filme (http://www.motim.org/index.php/2011/08/os-smurfs-um-avatar-fofinho/) falei que ele foi o melhor que usou esse recurso do 3D, e realmente foi. “Harry Potter” e “Alice” você nem percebe diferença… ENFIM.
Agora escrevendo penso que o público com o passar do tempo se cansou das repetidas truncagens do Melies. Vamos combinar: elas não mudaram. A diferença é a estrutura narrativa mesmo, que nessa é bem mais elaborada. A outra é uma peça, se você for ver tem uma locação… Essa tem a reunião, a lua, etc. Aumentou o número. Sem contar em termos de maquiagem, figurino e cenografia. Menos tinta e mais… isopor? Sei lá se isopor existia.
A questão do cinema como entretenimento sempre existiu. Surgiu como brincadeira, alguns foram lá e viram um potencial como indústria e deu no que deu. A questão do cinema-arte eu não sei exatamente quando surgiu. Talvez com os surrealistas? Posso tá falando besteira aqui (certamente estou), meninas, ajudem-me… Engraçado que enquanto na época eram entretenimento barato (afinal, as classes operárias eram o público alvo), hoje viraram arte, artigos de cinemateca. Mas nós que fizemos isso (ou no caso, os primeiros teóricos). Será que eles imaginaram isso um dia? Acho que não.
-Heitor Machado

Sobre Mèliés

(Por Diego Carrera)

Vi ontem os três filmes!

Nossa, dava para ser até mais que três, porque eles não são só muito curtinhos como uma delícia de assistir. Provavelmente pela questão da linguagem ainda indefinida dos primeiros filmes da história – e no geral essa aura de comicidade ingênua que eles têm -, por causa do hibridismo teatro/cinema, eu ri onde teoricamente não era pra rir, mas uma risada gostosa e sem deixar de me encantar com aquilo (ou até de repente por ter me encantado com o Méliès de uma maneira diferente da qual eu estou acostumado a ser encantado).
Gostei demais dos três e estou com os outros lá para ver de vez em qdo. Bom. Vou escrever separadamente um pouquinho de cada um deles e depois fazer um apanhado geral, porque acho que dá pra tirar bastante coisa de cada um deles:

 L’homme orchestre – Foi o que eu vi primeiro e me surpreendi com a duração dele, é MUITO curto, pensei que fosse rolar uma narrativa, mas é uma brincadeira visual, um número de ilusionismo mesmo. Fico pensando como isso deve ter impressionado o povo em 1900 e, no meio disso, me lembrei daquelas primeiras exibições de filmes na Europa e nos Estados Unidos em que o que move essas produções é o desejo de brincar com a reação física da plateia, como por exemplo qdo os irmãos Lumière posicionavam a câmera num ponto contrário ao trem em movimento e as pessoas reagiam a isso na sala levando sustos e saindo correndo, achando que fossem ser atingidas pelo trem, ou qdo nos Estados Unidos eles fazem aquele faroeste clássico (que na Faap eles adoram passar, ou pelo menos adoravam) em que o protagonista aponta a arma para a câmera e atira. O Méliès aqui fez parecido, só que considerando a câmera um público de teatro e fazendo o que não conseguiria fazer ao vivo por truques de montagem. O mais legal é que esse lance engenhoso e hábil para lidar com a técnica da coisa, nele, é sempre com o intuito de impressionar e deslumbrar os olhos. – e isso eu vou aproveitar pra desenvolver melhor no fim do e-mail.

(Link para o filme no Youtube: www.youtube.com/watch?v=3RMp32GPWww)

 Barbe-bleue – apesar da narração chata daquela francesa, eu adorei. Gente, é tudo muito mínimo em matéria de linguagem cinematográfica ainda (câmera estática / movimentação em cena / cenários estilizados), mas ao mesmo tempo, COMO É CINEMA, cara. Hj em dia tem nego que tenta contar historinha usando mil e um diálogos e não consegue chegar a lugar algum. O Méliès foi lá, armou QUATRO cenários, chamou uns atores, fez umas trucagens e contou uma história em poucos minutos divertida e, eu imagino, eletrizante para a época. Fiquei impressionado com o jeito como ele arrasta a mulher pelo cabelo naquela cena e com a trucagem da cena da morte. É engraçado, mas fiquei imaginando como seria a minha reação naquela época – impressionado como eu fico com a violência no cinema, sempre – ao ver algo assim. Acho que mexeria um tanto comigo.

(Tem link no Youtube também: www.youtube.com/watch?v=b4BjFvO1ClM)

 Viagem à lua – Maravilha! Não me espanta em nada o filme ser um ícone. Mesmo tendo visto todos os Senhor dos Anéis, Harry Potters e Jurassic Parks da vida, me dá uma certa alegria assim poder ver de onde é que vem toda a fantasia a que eu fui habituado a conviver durante a infância e que de vez em qdo vem bater na minha porta na idade adulta. É muito legal ver aqueles caras passeando na Lua em 1902, com aquelas roupas, bengalas e tudo mais, naquele foguetinho pequenininho. E mais uma vez: poucos cenários, alguns atores e uma ideia grandiosa na cabeça. Fiquei imaginando uma possível refilmagem – e ok, pode parecer sacrílego, mas eu acho que tem tudo a ver – passada na mesma época, por algum dos melhores “magos” que a gente tem no cinema contemporâneo, e com bons atores. Pq o filme é eletrizante (se a gente não tivesse perdido a capacidade de se sentir com o coração aos pulos vendo algo assim): a ameaça dos habitantes da lua, a captura, a fuga, o suspense para que o foguete decole antes que as criaturas alcancem eles. Está tudo lá, tudo o que a gente está habituado a ver hj, mais de cem anos depois. Cem anos. Que coisa, não?

(Mais link no Youtube: www.youtube.com/watch?v=vZV-t3KzTpw)

O que eu me surpreendi pensando depois é que o cinema nasceu mesmo como entretenimento, e eu não tinha parado pra pensar nisso, apesar de ter estudado história do cinema e isso ser um tópico, eu sei. O cara era um Spielberg! Ele sabia que, dentro daquela lógica, daquele universo lúdico, ele estava fazendo uso de um talento próprio para fazer a arte dele mesclando as linguagens que ele conhecia: teatro, ilusionismo, fotografia. E era uma criança em estado constante de contemplação dos próprios sonhos e dos sonhos alheios, eu acho. E isso pra mim é arte, é alcançar de verdade uma afinação interior que possa, de alguma forma, dialogar com os outros. Mas daí vem a ideia do entretenimento nesse caso. Era uma arte não entendida como arte e que talvez seja assim entendida hoje, mas que tinha a função de entreter e divertir as pessoas, como num circo. Tem um filme que eu adoro, de suspense (dos bons), de 1945, do Siodmak, eu acho, Silêncio nas trevas, que se passa mais ou menos nessa época dos filmes do Méliès e que tem uma introdução que gira em torno de uma exibição de um filme para o público. A personagem central, que é muda, a Dorothy McGuire aliás (que está uma coisa de louco no filme) vai assistir e se impressiona demais com o que vê na tela – eu nunca me esqueço das expressões dela assistindo. E sempre que eu vejo um filme dessa era eu me lembro dessa expressão maravilhada, tensa, assustada. me identifico e acho um verdadeiro milagre: é como se de repente o homem tivesse encontrado não só uma mina de ouro (o que muitas vezes é mesmo) mas mais do que isso: um recurso pra sonhar e dar asas às ideias mais malucas que a gente pode ter. Foi uma libertação ter entrado no século XX com isso nas mãos e os recursos terem caído na mão de um Méliès para que ele apontasse e dissesse: “Hey, dá pra gente brincar com isso aqui, dá pra provocar muito a reação das pessoas”, e ter feito isso de uma maneira tão linda.

De como a gente resolveu brincar com cinema.

Entre conversas livres a respeito de Bergmans, Qatsis, Cabirias, Kanes, silêncios e metáforas, os autores deste blog resolveram criar uma  brincadeira: ela consiste em assistirmos, cada um dos cinco membros, um filme por semana – escolhido ao sabor dos acontecimentos e ideias que foram aparecendo pra gente aqui e ali. E então, ao longo da semana, embarcamos numa conversa por e-mail sobre o eleito em que vale tudo: relacionar filmes com outros filmes, com livros, músicas, colocar no meio parte da nossa história profissional, acadêmica, pessoal, quem sabe até íntima (no meu caso, pelo menos, isso sempre é válido e eu uso tanto ao ver cinema quanto ao falar sobre o assunto).
A nossa primeira escolha acabou convergindo por acaso para os primórdios do cinema: George Méliès e seus três curtinhas L’homme orchestre, Barbe-bleue e o antológico Le voyage dans la lune, que todo mundo que estuda cinema um dia foi obrigado a ver com caderninho no colo. Todos eles com mais de cem anos de idade. Entre os e-mails trocados saíram várias coisas legais, que vão ser postadas aqui nos próximos dias, então sentem-se e considerem-se convidados a participar como quiserem: lendo tudo, acompanhando em picadinho ou escrevendo pra gente.

Pôster original do Voyage dans la lune, 1902.